A prova estava ganha à partida. Já tinha sido ganha há muito tempo e poucos haveria por convencer a esta altura do campeonato. Incensados pela crítica e recebidos de coração aberto pelo público desde o momento zero (quando ainda apenas se conhecia um EP editado em 2012; o álbum homónimo apenas viu a luz do dia este ano), os Cigarettes After Sex são um fenómeno intrigante.
Se mais provas fossem necessárias bastaria passar pelas redondezas do Hard Club, no Porto, no último domingo de Novembro, para deixar a enchente falar por si (uma fila de gente como há muito não víamos naquela sala).
Também nós não somos novatos nestas andanças: já houve sexo, muitos cigarros e estas sonoridades fazem parte da nossa dieta musical desde que nos partiram o coração pela primeira vez. E já trocámos algumas experiências com eles noutras situações (não nos atraíram no idílio Courense e as atracções do Primavera falaram mais alto) mas… nunca nos bateu forte.
Costuma dizer-se que à terceira é de vez e, em nome do princípio científico da “água mole em pedra dura…”, juntámo-nos à romaria para ver como seria desta vez. Em ambiente controlado.

A conclusão é, como seria de esperar, tudo menos científica: esta terá sido a vez  que foram mais convincentes com o recato fechado da sala a favorecer a sonoridade. Mas ainda assim, faltou ali qualquer coisa para que o cigarro pós-coito fosse mesmo prazeiroso.
Quatro músicos em palco (Greg Gonzalez, vocalista, guitarrista, produtor e mentor sofredor; Pillip Tubbs, teclista; Randy Miller no baixo e Jacob Tomsky na bateria), atitude entre o tímido e o lacónico, iluminação discreta mas elegante e apenas umas quantas imagens repetidas em fundo ao longo do concerto – sejam edifícios citadinos num nevão ou semblantes esfíngicos de mulheres que nos fitam sem sabermos se estão num sofrimento sereno ou embuídas no ardor da paixão, sempre a preto e branco, ou se se preferir numa expressiva gama de cinzentos.
Sunsetz abre o concerto e começa o transe sonoro.

Fotografia por Margarida Veiga

Tudo é combustão lenta, desacelerado, os acordes são repetidos encantatoriamente, os ritmos são lentos e fumarentos, as melodias dolentes e convidativas. Em contraste, as letras são extremamente imagéticas (quase cinematográficas) e a voz – timbre andrógino entre o blasé frio e monocórdico e o lamento caloroso.
Esta é a fórmula repetida pelos Cigarettes After Sex ao longo de quase duas horas com a sala esgotadíssima completamente rendida, quase sempre em silêncio devoto – viram-se movimentos suaves embalados pelo som, houve certamente olhares, apertos de mãos e abraços cúmplices, letras sussurradas ao ouvido. E fumo de cigarros.
Houve momentos de uma beleza desarmante e são-no quase sempre em termos instrumentais, picos de uma intensidade que (infelizmente) não é constante e a voz não consegue replicar. Mas quando acertam, acertam em cheio: a bateria arrastada e a guitarra em loop de I’m a Firefighter foi de tirar a respiração; K, John Wayne e Opera House foram ainda mais intensas ao vivo. Momentos em que o tempo pára e nos perdemos.
A sequência final foi em crescendo com parte do público já a ressentir-se de tanta delicadeza e a querer demonstrar mais qualquer coisa; no fundo a querer participar, cantar, deixar de ser um mero voyeur. Each Time You Fall in Love foi  belíssima com aqueles dedilhados na guitarra a perdurarem ad eternum na nossa memória; Nothing’s Gonna Hurt You Baby e Apocalypse foram outros momentos a reter.
Antes disso houve um pedido, Starry Eyes (versão de Roky Erickson, senhor dos psicadélicos 13th Floor Elevators), despida,  em câmara lenta e a já célebre versão dos REO Speedwagon, Keep on Loving You. Como aparte, se algum mérito os Cigarrettes After Sex tiverem, que seja o de transformarem esse hino histérico-chunga ao amor abnegado numa música que se possa realmente dedicar à pessoa amada sem sofrer represálias irreversíveis (ou ficar a seco durante um mês!).
Para o final (em encore sonoramente pedido) tocaram a faixa que encerra o álbum, Young & Dumb e acendem-se as luzes. E um cigarro!

Ao longo do concerto foi quase impossível não pensar em nomes obrigatórios que gravitam nesta órbita sonora. Entidades como Mazzy Star, Red House Painters, Spain, entre muitos outros – o próprio Greg Gonzalez aponta, como referência, esse monumento sonoro que é o Trinity Sessions dos Cowboy Junkies – mas fazendo o balanço (ingrato, bem sabemos) não chegam lá; percebe-se a intenção mas não se chega ao nível do assombro quem quer. Louve-se a coesão do projecto (e do álbum), a mestria de algumas canções mas há qualquer coisa de forçado (quase falso) que não convence e impede o prazer total.
Como paliatvo para dores de corno ou corações estraçalhados serve muito bem o propósito mas falta chama; não deixa marca. Fugaz como o fumo de um cigarro.

Como a grande maioria dos presentes não pareceu desiludida o problema poderá ser na nossa análise “científica”, claro está! Consultaremos um cardiologista (ou um conselheiro sentimental) quanto antes, just in case…

Nota Final: após o concerto, umas quantas ruas mais acima no bar Café Au Lait, houve ainda tempo para mais um cigarro acompanhado por um copo de vinho e pela banda que acedeu fazer um meet and greet para os fãs. Fotos, autógrafos, bebidas, conversas sobre amor e morte – tudo questões pertinentes para um domingo. Só mais um cigarro…

Galeria fotográfica por Margarida Veiga

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O ponto de partida foi na Alemanha. O crescimento foi em Viseu e Alcobaça. A formação
passou por Braga e Lisboa. Entretanto, o Porto adoptou-me há cerca de 8 anos.
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