Terceiro e último dia da maratona musical minhota e as surpresas começaram logo bem cedo. Muito seguramente a surpresa das surpresas estava para acontecer: os Boomtown Rats salvaram o dia, o festival e, quem sabe, o ROCK!
A banda liderada por Bob Geldof veio a Vilar de Mouros mostrar como se faz um concerto (seja em sala ou num festival de Verão). Geldof agarrou o público logo no primeiro segundo de concerto: a sua postura, a indumentária em fato integral de leopardo, o tom coloquial com que comunicou com o público, a simpatia, a irreverência, a entrega de corpo e alma, a raiva, o ar lascivo, em suma, a magia do rock’n’roll. E principalmente, porque se tratou de uma aula de como dar um concerto de rock, o entusiasmo e a loucura insolente da juventude que os Boomtown Rats foram buscar ao baú de cada um e o borrifaram para cima do público. Bob Geldof falou em português, saltou, gemeu, gritou, pavoneou-se, ajoelhou-se e rastejou. Em suma: um front-man como poucos. Já não era o Bob Geldof, era um Boomtown Rat, intenso, visceral e puro. “All you need is the beat… the beat of your heart” disse, parafraseando John Lee Hooker. Note-se que foi o único concerto em que esteve toda a gente aos saltos (fosse pelo punk, pelo glam, pelo ska, pelo pub-rock com salero tropical ou pela desbunda europop trash do final). Notável! E porque velhos são os trapos, lamente-se e envergonhe-se quem julga que vem a concertos deste calibre ver velhotes enxutos. O que se viu ali foram putos crescidos a tocar rock’n’roll.
E Bob Geldof é um senhor. Oh Sir, yes Sir, you’re a punk rocker! (aaahhh! E não, não gostamos de segundas-feiras!)

Depois de tamanha descarga eléctrica as bandas que se seguiram tinham a tarefa bastante dificultada. Por muito bons que tenham sido, nenhum concerto atingiu os mesmos níveis de energia.
Os Psychedelic Furs quase o conseguiram, pois tiveram uma considerável legião de devotos ansiosos por regressar uns aninhos no tempo (mas não o conseguiram totalmente… e talvez a culpa seja dos Rats!). Aquela voz rouca do mais rouco que se possa ouvir e que se ouvia na rádio. Aquela música saída do filme homónimo de John Hughes: “Pretty in Pink” estava ali mesmo à nossa frente. Saídos do post-punk integrados numa new wave nos 80s, os Psychedelic Furs tinham aquele som impregnado de sintetizadores, mas com guitarras distorcidas à mistura. Para a altura tinham um som demasiado alternativo para puderem ter um boom à escala mainstream. Em formato de best of trouxeram temas como o já referido: “Pretty in pink” e também: “Ghost of you”; “Heaven”, “India” e “Love my way” entre outros. Revivalismo ao melhor nível. 

Dos Morcheeba – da leve e comunicativa Skye Edwards e Ross Godfrey – fica uma lembrança simpática. Os sons ondulantes downtempo envelheceram muito melhor do que seria de esperar. Temas como “Trigger Hippie”, “Friction” e “World Looking In” ainda fazem sentido e dadas as ambiências fumarentas e trippy foram um bom tónico para o que os antecedeu. “The Sea” e “Blindfold” conseguiram até um (tímido) coro por parte dos muitos fãs que se encontravam a par de uma versão bem balançada de “Let’s Dance” (sim, de David Bowie!) que pôs toda a gente a… dançar.

E a dança continuou com ritmos mais acelerados e esquizofrénicos.
Despedimo-nos de Vilar de Mouros com os sons frenéticos dos irmãos Dewaele. Mais uma sessão de corta, cola, mistura, re-mistura e volta a dar dos 2MANYDJS para fim de festa. Ainda conseguimos ouvir um mash-up marado entre “1999” de Prince com os sons ABBAescos da mais recente encarnação dos Arcade Fire. A festa deve ter sido boa e acabado em alta rotação.

Para o ano há mais. Vilar de Mouros espera por nós a 23, 24 e 25 de Agosto de 2018 Marquem já na agenda!

Reportagem escrita por Paulo Carmona e Sérgio Vieira

Fotografias por Patrícia Sanroque

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